Campeão da Vida

“O mundo dos sem aplausos, esquecidos na sombra da inutilidade perante os padrões de glória social, pode lhe fazer um campeão de vida – de uma vida que tenha sentido. Sei que é mais difícil, porque não é para qualquer um vencer o egoísmo.”

É muito fácil amarmos quem está no alto do podium. Quando alguém se assenta no sucesso de seu esforço, não se discute sua vitória. Compartilhar a alegria de um vencedor, poder estar próximo do pensamento positivo e da glória é realmente contagiante. É um momento. A medalha, troféu, vitória de qualquer disputa, vence um.

São muitos vencedores, em disputas diferentes sim, mas são muitos mesmo. Quem bom! Mas quem não venceu? Será que é mesmo em meus valores, tão fácil amar o derrotado como consigo amar o vitorioso? Será que tiveram as mesmas oportunidades? Será mesmo que a disputa foi justa do ponto de vista de disponibilidade de recursos? Talvez você se atenha ao mundo dos esportes, tão propalado como sinônimo de vitórias e glórias. Acredito piamente que essa manifestação extrema de emoções se repete no nosso cotidiano, onde pessoas vencem e outras perdem o tempo inteiro, em cada centímetro de nosso mundo.

Confesso que nunca me senti muito a vontade diante dos grandes vitoriosos. Vi muitas vitórias injustas, baseadas em coisas ruins, bastidores espúrios, mentiras, falsidade, traições, entre outros fatores tristes da humanidade. Não que as vitórias justas não tenham me enchido de alegria, inundado pela felicidade de quem venceu sem desdenhar quem perdeu. As virtudes justas nos emocionam mesmo.

Acredito de coração que as pessoas que tem menos do que eu, que não tem acesso as oportunidades que tive, são vencedores diante de suas dificuldades. Discriminar quem não chegou a um determinado patamar que um grupo social define como padrão de vitória e de glória não faz de quem não chega alguém que não possa contribuir com todo o resto. Essa igualdade que tanto amedronta determinadas camadas sociais deveria ser um desafio aos tão idolatrados campeões na vida. Fernando Pessoa criticava esse sentimento em sua poesia como príncipes sem defeitos. Obviamente falíveis, mas jamais honestos para assumirem suas fragilidades.

Amar quem se apresenta no auge de sua utilidade, é fácil, porque me é útil de sobra. Muitas das vezes sou visto como radical na defesa dos marginalizados aos padrões porque provoco quem tem obrigação de ter uma visão mais ampla, de longo alcance, pois está em lugar privilegiado: no podium. Vejo ainda hoje tanta gente destruir sua história humana para viver a fantasia da falsa glória, travestida de felicidade. Mera temporalidade das sensações. A tua verdade está naquela raiz que te fez chegar, não no que viverás durante o êxtase festivo de uma posição confortável até que alguém lhe tome o título.

Sempre preferi o chão, de onde erguemos campeões juntos, do meio de nós. É mais feliz acreditar em quem brota da dificuldade, que sente o vento frio de uma ainda madrugada em um ponto de ônibus esperando a boa vontade de alguém que as vezes nem sabe quem, mas que depende. Que sente o banco gélido da sala de espera de uma unidade de saúde pública. Que se indigne com a indiferença, racismo, preconceitos. A dificuldade foi, é e, sempre será a melhor faculdade na formação de um amor muitas vezes incompreendido no mundo das disputas – das competições. Ser útil uma vida inteira, para mim, é a maior vitória. Ter a sensação de que alguém precisa da gente é muito bom, mas saber que podemos atender é sem dúvida a felicidade plena. Infelizmente, a utilidade parasita que o mundo cada vez mais competitivo constrói, abandonou velhos pelo caminho, portadores de necessidades especiais, deficientes físicos, dependentes químicos, alcoólatras, depressivos, doentes, suicidas… O mundo dos sem aplausos, esquecidos na sombra da inutilidade perante os padrões de glória social, pode lhe fazer um campeão de vida – de uma vida que tenha sentido. Sei que é mais difícil, porque não é para qualquer, vencer o egoísmo.

Obrigado pela leitura,

Jean Sestrem

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